Gestão de Conflito na profissão PROFESSOR

Quando falamos de Gestão de Conflito, pode vir de imediato uma sensação de PROBLEMA. De fato, quando temos um problema, normalmente encaramos  como algo somente negativo para a carreira, mas o que faz um conflito ser positivo ou negativo não é o fato dele ser um conflito e sim a forma de geri-lo: Como resolvemos? Todos temos problemas diários e um conflito normalmente é gerado pelo acúmulo de pequenos problemas mal resolvidos.

É importante estar atento às decisões, às relações pessoais, e à forma de se comunicar. Estamos o tempo todo gerindo nossas escolhas e todas as nossas ações possuem consequências.

Ter conflitos não significa que estamos errados, mas sim que estamos em constante ação perante o universo.

Sou professora de dança, formada na área da comunicação e acredito na conexão entre os humanos onde os canais, seja ele o corpo (dança) ou verbal (escrita ou fala) são extremamente importantes para o sucesso de um gestor. Após 15 anos trabalhando dentro de sala de aula percebo a necessidade de saber gerir não somente meus horários e obrigações, mas também as relações humanas diárias que por ali existem.

Várias causas podem iniciar conflitos: diferença de personalidade, interesses diferentes, falta de recurso, mentiras, diferenças de crenças e valores e percepções que divergem. Arrisco dizer que já detectei cada uma delas no meu trabalho. Nós professores lidamos diretamente com três clientes: os alunos, os pais dos alunos e a diretoria. Cada um possui seus interesses e enxerga o professor da sua forma, de acordo com as suas expectativas e experiências. Normalmente a natureza do problema da relação aluno X professor é humano, são diferentes personalidades em sala de aula e o professor precisa administrar sua fala e o conteúdo de aula para manter todos interessados e focados na execução dos exercícios. Dentro da escola, muitas vezes nos deparamos com alunos que veem para a dança somente porque os pais querem que a criança tenha uma atividade extra, não partindo dela a vontade de dançar. Assim, é mais desafiador ainda para o professor conciliar os interesses em sala de aula.

É preciso muita criatividade para atrelar interesses possíveis para a faixa etária com relação ao conteúdo prático da dança. Instigar alguém a se mover, se exercitar e perceber os benefícios disso não pode ser algo imposto, é uma conquista diária, de diálogo, atividades que integrem igualmente o aluno para ele pertencer a um lugar e querer estar lá. Posso aprofundar ainda a relação professor X aluno e seus conflitos, na decisão das músicas para atrair o interesse durante a aula, na escolha de temas a serem trabalhados
em palco. Tudo precisa ser bem estudado, o professor precisa conhecer o que seu cliente/aluno gosta, ouve, veste e se interessa, para caminhar junto e conquistar cada vez mais os estudantes em sala.

Outra prática diária do professor dentro da gestão de conflitos na relação direta com alunos é ser sensível às pequenas necessidades da turma, reconhecer cada um por nome, saber que além de aluno são humanos e você é espelho, reconhecer o crescimento, trazer benefícios quando as coisas vão bem. Quadros de “estrelinha”, boletim mensal, cartinha, etc… Cada professor tem sua maneira de avaliar e estar sempre impulsionando seu aluno a crescer criando assim um laço de confiança onde os conflitos serão cada vez mais produtivos. Um exemplo: a discussão será sobre a cor do figurino e não sobre pedir/obrigar o aluno a dançar. Quando é conquistado esse campo de conforto nessa relação, cada conflito tende a ter resultados importantes para o crescimento de ambas as partes.

A famosa pergunta: O que fazer para que o outro se interesse por mim ? O professor dorme e acorda se perguntando e visando responder a cada aula. Nada mais recompensador que o crescimento exponencial de um aluno para o ego do professor. Aluno indo bem, professor feliz, pais satisfeitos, diretoria em paz.

Falando da minha experiência: Moldei também minhas atitudes dentro das crenças e valores do meu trabalho pois se trata de uma escola de orientação evangélica. Quando ensinamos arte,o primeiro pedido para o aluno é  que ele se liberte, solte sua imaginação, se coloque de acordo com o que ele se sente à vontade, porém, dentro de uma escola evangélica, não é possível lidar dessa forma. Para manter uma relação saudável professor X diretoria preciso apurar as músicas a serem usadas, as roupas para usar em sala de aula e a maneira de falar. Nada disso é prejudicial ao ponto de me deixar infeliz como profissional, mas saber abrir mão de certos costumes para que ambas as partes fiquem satisfeitas, gera uma boa socialização e equilibra o relacionamento. É importante entender que todos temos opiniões próprias e nem sempre elas vão convergir para um mesmo caminho,  tudo bem, posso andar em curvas e o diretor em linha reta e ainda sim podemos ir na mesma direção. Ao longo dos anos aprendi a me autoavaliar enquanto profissional.

Qual a minha parcela de responsabilidade não somente no aprendizado do aluno mas em todos os possíveis conflitos? Como me comporto, verbalizo e quais são as consequências das minhas ações? Costumo dizer que um bom gestor de sua carreira, aprende cedo a ser proativo. Essa palavra me persegue há anos, pois além de professora sou fundadora e diretora de uma Cia Profissional de Dança desde os 17 anos de idade. Isso gerou em mim  um senso de responsabilidade e proatividade muito grande.

Comecei a gerir pessoas sem nem mesmo saber que estava gerindo. Fui aprendendo na prática a ser empática ao ouvir queixas e dores de bailarinos que tinham a mesma idade que eu, ser “chefe” aos 17 anos não foi fácil. Existiram muitos erros para que os aprendizados viessem juntos e isso me mostrou a importância do equilíbrio emocional, que confesso, não é o meu ponto forte. A empresa/Cia precisou se despedaçar, algumas vezes, e se reerguer junta, porém o pilar de sustentação maior era o meu , enquanto diretora e coreógrafa. Muitas vezes, como chefe principalmente jovens, não distinguimos bem o que é relação de trabalho e relação de amigos. Foi preciso muita integridade, conversa e flexibilidade ao longo dos anos (sou diretora da Cia há 18 anos). Outra característica que aprendi exercitando foi o da persuasão, dia após dia, cativando pela emoção, pelo amor à arte, pela necessidade do artista de ser arte e inspirando e impulsionando bailarinos a acreditarem em seus sonhos. Além da dança, sempre estudei outros saberes.

Acredito, que se queremos expandir nossa carreira e nossas relações com o mundo, não podemos ser líderes limitados. Conhecer mais e ouvir mais vai te fazer entender melhor as dores dos seus clientes. Ao conhecê-los bem, você consegue despertar neles a necessidade de resolução das suas dores. Finalmente em ação, você comprova o porquê ele precisa da sua intervenção para evoluir, validando o seu esforço. É comum o artista romancear a sua visão de mundo e limitá-lo somente ao amor pela arte, mas minhas formações em Publicidade e Propaganda, Gestão Cultural em Dança e Marketing, me fizeram enxergar a dança como um negócio e assim gerir minha profissão/carreira pautado sempre em modelos de negócio e gestão. Para atingir esse objetivo, passei por muitas transformações comportamentais. Mudei a maneira de conversar com bailarinos, alunos e pais. No início, minhas negociações não eram muito seguras, precisei me descobrir nesse processo para conversar com cada cliente. Alunos gostam de se sentir importantes, pais gostam que você demonstre interesse. Como professora superei muitos bloqueios de timidez e insegurança de falar em público. Estudar muito sempre foi uma maneira de me assegurar conforto na hora de conversar. Quanto mais você está seguro no assunto, mais tranquila a negociação vai fluir. Mudei por necessidade. Queria ser referência na minha área, preciso estar no palco, sou diretora de Cia e preciso verbalizar e ao final dos espetáculos. Foram pequenas lutas diárias e

a minha mudança enquanto profissional veio de dentro para fora. Pude identificar claramente etapas de mudança na minha forma de lidar com conflitos internos, passei anos negando, até ser obrigada a tomar a frente da Cia para um público de 2000 pessoas.

Resisti pedindo para que alguém nos apresentasse a este público e que eu ficasse apenas como bailarina, mas como gestora não poderia continuar me esquivando de determinadas obrigações. Precisava dar o passo para fora da minha zona de conforto que era a dança e finalmente falar em público. Tenho muito orgulho de olhar para a profissional que passava o microfone para qualquer pessoa com medo de falar do próprio trabalho, para a profissional que conseguiu palestrar e dar aulas teóricas para turmas em eventos. O meu processo de gestão de carreira foi árduo, pois estou resumindo em um parágrafo mais de 10 anos de processos e mudanças neste interregno da minha atuação. Eu percebi que só poderia gerar mudança em alguém se eu também fosse capaz de me adaptar cada vez mais rápido e aprendesse a lidar com os conflitos e mudanças ao meu redor. Foi através da flexibilidade de pensamento, de aprendizado e reaprendizado, que pude e continuo aprendendo a viver no ciclo de mudanças que forçam o ser humano a evoluir profissionalmente.

A palavra que vejo em comum em bons gestores é: comprometimento. Sua voz, fisiologia e palavras precisam convergir para o mesmo objetivo. A relação que mais gera conflitos dentro da minha profissão, sem dúvidas é a relação professor X pais. Há sempre uma negociação para que ambas as partes fiquem satisfeitas. Confesso que nesse tipo de relacionamento procuro ser mais assertiva e estável, pais gostam de segurança, de certezas, de cronogramas, de notas, de resultados e o professor precisa atender às expectativas deles perante o desenvolvimento e performance dos seus filhos. Ao lidar com a diretoria sou uma professora detalhista, ao lidar com alunos persuasiva e com pais assertiva. Cada um exige uma performance que preciso administrar diariamente. Procuro sempre fazer as perguntas certas para cada cliente, pois as chances de compreensão veem quando você descobre o que o outro quer, só assim é possível haver uma negociação. O último conflito que precisei gerir veio junto à pandemia atual da COVID-19.

Como manter as aulas de dança na lista de prioridade das pessoas que estarão em casa pelos próximos meses?

A minha solução mais prática vem sendo avaliar pequenos problemas antes de avaliar a situação geral. Primeiro: tenho internet boa para manter uma aula online? Espaço suficiente para ministrar uma aula de qualidade? Manutenção do relacionamento com os pais e alunos para que saibam que isso é apenas uma fase. Garantir que a qualidade de ensino será a mesma. Não deixar as emoções assenhorassem da situação. Entender as situações de cada família, respeitar o tempo delas e respeitar a decisão final, ciente de que está fazendo o melhor ao seu alcance no momento. Em cada ligação para pais de alunos, buscava iniciar as conversas/negociações para que seu filho continuasse praticando aulas de dança remotamente a partir do lado positivo de manter as atividades e os benefícios que isso traz em tempos de crise externa. Ter coragem para conversar abertamente e manter uma postura assertiva diante da situação também foi essencial. Neste momento tenho me policiado para ouvir mais atentamente a minha audiência a fim de deixá-la satisfeita e confiante no meu trabalho, que no momento sofreu alterações devido a problemas externos. Busco então, alternativas para que meus alunos se sintam confortáveis em manter as aulas e se permitam experimentar o novo junto comigo. Ter consciência das ferramentas de gestão sem dúvidas me propiciam a manutenção das atividades, contribuindo para uma adaptação rápida ao novo cenário e, consequentemente diminuir a incidência de conflitos.

Por Manuela Gadelha ~ @manugadelha


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