Abraçar aquilo que dói em nós pode nos ajudar, enquanto artistas, a criar.

Eu aprendi com Rubem Alves que o grão de areia, quando entra dentro de uma ostra, machuca. Machuca porque o interior da ostra é macio e delicado, motivo pelo qual a ostra tem uma casca tão dura para lhe proteger. Mas ainda assim, às vezes um grão de areia consegue ultrapassar essa dura barreira e entra para machucar a ostra com suas pontas ásperas. Por causa do grão de areia, sabe o que a ostra faz? Cria uma pérola em volta dele. Por causa da dor, a ostra produz algo bonito.
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No mundo em que vivemos hoje, estamos acostumados a pensar que todo sofrimento precisa ser rapidamente, a todo custo, eliminado. Não estamos acostumados a pensar na falha, na imperfeição, no engano, no tropeço, na decepção, enfim, na dor, como parte inerente daquilo que nós somos: seres humanos.
Claro que, quando fica difícil demais suportar o sofrimento, algo precisa ser feito (procurar uma ajuda profissional é o mais indicado). No entanto, quanto antes a gente entende que o sofrimento faz parte do processo de viver, mais cedo a gente deixa de se cobrar para estar sempre bem. Mas o que quase nunca pensamos é como as dificuldades da nossa vida podem produzir efeitos interessantes. Como assim, Nathássia? O que há de produtivo em sofrer?
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Já ouviram falar na expressão “tragédia grega”? Ela vem do fato de que, na grécia antiga, a tragédia era considerada parte essencial da vida. Entretanto, como diz Nietzsche, os gregos não se entregaram ao pessimismo. Por que? Porque transformavam a tragédia em beleza. E nós? Como podemos transformar as nossas tragédias em beleza? Através da criação artística, por exemplo.
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Quem produz arte sabe que, muitas vezes, é a dor que nos move a criar. Através da arte, que pode ser a dança, a gente consegue fazer alguma coisa com aquela dor. É aí que a dor pode ser vista como produtora de coisas interessantes. O artista tem o dom de converter o sofrimento, em parte (não todo), em arte. A dor vira algo bonito. A beleza não elimina a tragédia, mas ela é capaz de tornar a tragédia suportável.
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Abraçar aquilo que dói em nós pode nos ajudar, enquanto artistas, a criar. Assim como a concha, podemos, quem sabe, produzir verdadeiras pérolas.

Por Nathássia Medeiros ~ @nathassia.madeiros


Comentários

  1. Eli disse:

    Muito show!!!

    Ameiiiiiii miga Nath 💗🌺

  2. Nathássia Medeiros disse:

    Obrigada!! Adorei escrever esse texto!

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